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	<title>3rd BRAINN Congress &#8211; Cérebro e Saúde</title>
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	<description>Equilibre Corpo e Mente e melhore sua Saúde</description>
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		<title>Cérebro muda de acordo como é usado, diz neurocientista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cérebro &#38; Saúde]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Feb 2017 11:43:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Neuroplasticidade]]></category>
		<category><![CDATA[3rd BRAINN Congress]]></category>
		<category><![CDATA[BRAINN]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Merzenich]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As teorias sobre a neuroplasticidade formuladas por Merzenich e outros neurocientistas contemporâneos abriram perspectivas revolucionárias. &#160; Quando o assunto é neuroplasticidade, não há como deixar de mencionar os estudos pioneiros conduzidos por Michael Merzenich (Michael Merzenich), professor emérito da University of California, San Francisco (UCSF). &#160; Desde os anos 1960, quando ainda predominava entre neurocientistas&#8230;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>As teorias sobre a neuroplasticidade formuladas por Merzenich e outros neurocientistas contemporâneos abriram perspectivas revolucionárias.</em><span id="more-1271"></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando o assunto é neuroplasticidade, não há como deixar de mencionar os estudos pioneiros conduzidos por Michael Merzenich (Michael Merzenich), professor emérito da University of California, San Francisco (UCSF).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desde os anos 1960, quando ainda predominava entre neurocientistas a ideia de que o cérebro seria um órgão estático, pré-moldado sob estrita ordenação genética, Merzenich defende que é possível, ao longo de toda a vida, criar novos circuitos e conexões neuronais em resposta a estímulos e experiências, o que resultaria em mudanças funcionais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As teorias sobre a neuroplasticidade formuladas por Merzenich e outros neurocientistas contemporâneos abriram perspectivas revolucionárias – tanto para crianças com dificuldades de aprendizado como para pessoas com lesão cerebral decorrente de trauma ou de doenças como acidente vascular cerebral (AVC).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nas décadas de 1970 e 1980, por meio de experimentos com animais, Merzenich demonstrou que os circuitos neuronais e as sinapses se modificam rapidamente de acordo com a atividade praticada. Em um dos ensaios, rearranjou os nervos na mão de um macaco e observou que as células do córtex sensorial do animal rapidamente se reorganizaram para criar um novo mapa mental daquele membro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fim dos anos 1980, Merzenich integrou o grupo da UCSF que desenvolveu o implante coclear.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1996, fundou a Scientific Learning Corporation, empresa que desenvolve softwares voltados a aprimorar o aprendizado infantil com base em modelos de plasticidade cerebral.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Também foi um dos fundadores, em 2004, e é atualmente cientista chefe na empresa Posit Science, que desenvolve softwares para treinamento cerebral com base nos resultados de suas pesquisas. O programa é conhecido como BrainHQ.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nos últimos anos, Merzenich tem se dedicado a verificar se a prática de exercícios intelectuais pode ajudar a remodelar as funções cerebrais, possibilitando recuperar habilidades perdidas por causa de doenças, lesões ou envelhecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Seus estudos já foram publicados em mais de 150 artigos científicos – muitos deles em revistas de grande impacto, como Science e Nature. Ele também recebeu diversos prêmios acadêmicos, como o Russ Prize, o Ipsen Prize e o Zülch Prize.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 2013, Merzenich publicou o livro Soft-Wired: How the New Science of Brain Plasticity Can Change Your Life, no qual apresenta estratégias para que pessoas comuns possam assumir o controle dos processos de plasticidade cerebral e, assim, melhorar sua qualidade de vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Merzenich esteve no Brasil no início de abril para apresentar uma palestra no <a href="http://www.brainn.org.br"><strong>3rd BRAINN Congress</strong></a>, organizado pelo Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na ocasião, concedeu uma entrevista à Agência FAPESP na qual falou sobre como mudanças positivas e negativas podem ser direcionadas no cérebro. Leia os principais trechos a seguir.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div class="hr-thin"></div>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP – </strong>Como o senhor define o conceito de neuroplasticidade?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Michael Merzenich –</strong> O cérebro foi construído para mudar de acordo com as experiências vivenciadas e a forma como é usado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A esse processo contínuo chamamos de neuroplasticidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando trabalhamos para aprimorar uma habilidade, ocorre uma mudança na “fiação cerebral” (nas sinapses ou conexões neuronais), ou seja, são selecionadas as conexões que dão suporte ao comportamento ou à habilidade que estamos desenvolvendo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim como quando exercito meu corpo obtenho uma série de benefícios e altero a regulação de uma série de processos bioquímicos, quando exercito meu cérebro altero todo o seu funcionamento, seu suprimento de sangue e de energia, bem como a força de suas operações.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Portanto, não apenas melhoro uma habilidade em si, mas todo o maquinário cerebral. Quando jogo pingue-pongue pela primeira vez, sou muito desajeitado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Após um ano de prática intensa, fico muito habilidoso, consigo ver e acertar a bola com alta acurácia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por meio de mudanças físicas e químicas incrivelmente complexas, criou-se um cérebro com esse recurso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nosso cérebro será diferente daqui a uma semana e muito mais diferente ainda daqui a uma década. Pode ser uma mudança para frente ou para trás, ganhando ou perdendo habilidades. Depende do uso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP –</strong> O treinamento de uma habilidade favorece mudanças positivas, mas como as mudanças negativas são direcionadas?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> Fazemos coisas ao longo da vida que degradam nossa habilidade de extrair informações úteis do mundo a nossa volta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por exemplo: como um humano moderno, passo várias horas por dia olhando para uma tela na qual coisas importantes para mim acontecem. Tudo que está fora daquela tela é desimportante, inútil, uma distração.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estou sistematicamente treinando minha visão, estreitando meu ponto de vista, de modo que somente aquilo que está à frente de meu nariz é importante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fazendo isso, vou perdendo progressivamente a habilidade de processar a informação visual daquilo que está ao redor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O cidadão médio em meu país, e isso foi bastante estudado por lá, já perdeu em torno de 30% do seu campo visual aos 60 anos e mais de 50% aos 80 anos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As coisas acontecem e ele não vê porque o cérebro rejeita aquele estímulo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essa é uma das razões pelas quais os idosos sofrem mais acidentes de trânsito. Eles gradualmente vão regredindo a um campo visual mais estreito e, ao mesmo tempo, quando conseguem enxergar algo, respondem a esse estímulo de forma mais lenta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP –</strong> Mas é possível treinar uma pessoa de modo a fazê-la perder uma habilidade já adquirida, como entender a fala em outro idioma?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> Sim. Posso treiná-la usando formas modificadas de som não articulado, que não correspondem à fala.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Treino o cérebro a mudar sua capacidade de processamento de sons, de forma que esse perde a capacidade de interpretar os elementos que se modificam rapidamente no fluxo acústico formado pela estrutura fonêmica, a estrutura elementar das palavras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essa interpretação é necessária para extrair o sentido das palavras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim como posso refinar essa habilidade, posso destruí-la. Posso desafiar você a fazer distinções cada vez mais acuradas do que ouve, detalhadamente, em alta velocidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Posso treiná-la a fazer essa distinção mesmo quando a voz está baixa, ou o discurso está anormal e distorcido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ou posso fazer o oposto e degradar essa sua habilidade. Dar-lhe um cérebro que opera somente quando as coisas ocorrem morosamente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fazer com que não consiga mais interpretar os detalhes do som em determinadas frequências. Fizemos experimentos de treinamento não virtuoso com macacos e ratos e mostramos que isso é possível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP –</strong> Como o envelhecimento influencia as mudanças no funcionamento cerebral?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> O cérebro opera de forma muito limitada quando somos crianças e, progressivamente, vai aperfeiçoando seu maquinário de modo a operar com cada vez mais precisão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os diferentes sistemas vão se tornando mais coordenados em suas ações e isso vai melhorando até o auge da vida – que no humano médio ocorre entre o 20º e o 40º aniversário.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Uma alta performance persiste um pouco mais nas mulheres, mas, quando entram na menopausa, ocorre uma rápida deterioração em decorrência das mudanças hormonais e elas alcançam o nível masculino por volta de 60 ou 65 anos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Portanto, temos esse período da vida, de cerca de duas décadas, em que nosso cérebro opera em alta performance e depois deteriora.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se aos 30 anos uma pessoa está operando abaixo da média da performance da população (no auge de seu funcionamento cerebral, atingiu 100% de sua capacidade), aos 60 anos ela pode estar só com 16% de sua capacidade e, aos 80 ou 85 anos, com 10%.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ora, ninguém quer estar aos 85 anos com apenas 10% da capacidade cerebral e o que demonstramos é que essa deterioração é reversível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De maneira simplificada, o cérebro do idoso é mais lento em suas decisões e menos fluente em suas operações do que na juventude porque lida com as informações de forma mais confusa e degradada. Vicissitudes ocorrem ao longo da vida, causam ruído no cérebro e podem acelerar o declínio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pode ser uma queda de bicicleta e uma pancada na cabeça, uma infecção cerebral ou exposição a toxinas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas podemos treinar o cérebro velho e fazê-lo recuperar muitas de suas habilidades. Fizemos estudos com diversas populações e mostramos que é possível reverter esse declínio com treinamento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP –</strong> Como funciona o treinamento que o senhor desenvolveu?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> O treinamento aplicado pela BrainHQ busca primeiramente exercitar os mecanismos cerebrais que controlam a neuroplasticidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esses mecanismos também são plásticos e podem ficar subutilizados com a idade ou em decorrência de doenças. Mostramos que é possível treinar uma pessoa por 15 ou 20 minutos e, assim, regular processos bioquímicos nesse maquinário.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como consequência, tudo que ela aprender ou fizer na hora seguinte será potencializado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vai aprender mais rapidamente, como se eu tivesse lhe dado uma droga que aumenta o nível de atividade cerebral.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas, ao contrário do que acontece com a droga, se eu aplicar o treinamento todos os dias, durante 15 dias, a mudança é duradoura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A performance do maquinário cerebral é aprimorada e, quando olhamos um ano depois, o cérebro ainda está mais alerta, mais vivo, mais predisposto a mudar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em segundo lugar, o treinamento busca melhorar a maneira como o cérebro processa os detalhes daquilo que vemos, ouvimos e sentimos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>À medida que o cérebro fica ruidoso, vai mudando a forma como ele processa informação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vai perdendo a capacidade de interpretar de forma nítida os detalhes que se modificam rapidamente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O treinamento visa reverter essa mudança negativa, pois todas as demais operações cerebrais dependem disso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O limite da performance de qualquer operação mental complexa, como, por exemplo, a memória, será determinado pela claridade com que o cérebro representa a informação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se estou tentando gravar uma informação, quanto mais fielmente ela for representada no cérebro, mais facilmente eu consigo lembrar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O cérebro é uma máquina de fazer previsões. Ele acumula informações ao longo do tempo e, continuamente, faz previsões do futuro e associações com o passado. Posso melhorar essa capacidade simplesmente aumentando a clareza das operações.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para isso, treinamos o cérebro a manipular informações. Para elevar o nível de suas operações, posso dar uma tarefa em que o cérebro precisa não apenas vir com uma resposta certa, mas com várias possibilidades de resposta em uma alta velocidade e de maneira fluente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Posso treinar o cérebro a rapidamente classificar informações, a rapidamente mudar as regras de suas operações quando as condições do meio exigirem isso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todas essas coisas são válidas de serem praticadas. O que comumente fazemos é avaliar em cada indivíduo onde estão as falhas: no controle de atenção, na habilidade de gravar informação, na forma como ele representa informação em sequência ou como manipula e organiza cadeias complexas de informação. Todas essas coisas são passíveis de treinamento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O software que usamos lembra alguns jogos para celulares, pois propõe tarefas isoladas que devem ser cumpridas em 1 ou 2 minutos e oferece um certo número de tentativas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O nível de dificuldade vai rapidamente se ajustando na medida em que o indivíduo vence uma etapa, um nível mais difícil se abre e o desafia para aumentar essa habilidade a um nível maior.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP –</strong> O programa de treinamento pode ser usado para tratar doenças neuropsiquiátricas, como Alzheimer ou esquizofrenia?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> Temos diversos estudos que mostram que portadores de doenças como Alzheimer, esquizofrenia, transtorno bipolar, transtornos de ansiedade ou depressão podem ser beneficiados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não estou falando de cura, mas de melhorar a qualidade de vida. Mas, pelas leis do meu país, não podemos lidar diretamente com condições médicas. O treinamento, nesse caso, precisa ser intermediado por um médico ou terapeuta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Também temos estudos que mostram benefícios para pessoas com lesão cerebral causada por AVC ou por trauma, pessoas expostas a veneno, infecções cerebrais e estresse.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sempre conseguimos obter uma melhora – em alguns casos bastante significativa e, em outros, mais limitada por causa da magnitude da lesão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em um dos estudos, aplicamos o treinamento em uma população grande de voluntários que tinham sofrido uma concussão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Após dois meses, o cérebro havia voltado ao normal, enquanto o grupo que não passou pelo treinamento ainda apresentava alterações neurológicas um ano após a lesão. Também já testamos em pessoas sadias que desempenham funções em que a tomada de decisão pode envolver questões de vida e morte, como policiais e soldados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estatísticas indicam que policiais, de maneira geral, fazem más escolhas em 50% dos casos e isso causa grande impacto em uma cidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nossos resultados mostram que com o treinamento é possível melhorar o processo de tomada de decisão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em uma pesquisa feita em parceria com uma empresa de seguros, treinamos 20 mil motoristas profissionais ou informais, nesse segundo caso, idosos, e reduzimos pela metade o número de acidentes de trânsito. Já treinamos cerca de 600 mil pessoas ao todo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP –</strong> Assim como acontece com os músculos, o cérebro perde os benefícios adquiridos quando o treinamento é interrompido?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> Fizemos quase 30 ensaios clínicos para avaliar a duração do efeito e vimos que há sempre alguma duração significativa, em alguns domínios bem mais do que em outros.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se você treina e muda a forma como o cérebro trabalha a atenção, isso é mais duradouro, pois é uma habilidade usada em muitas situações da vida real.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já quando você treina a habilidade de ouvir, a deterioração é mais rápida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas, certamente, se você atinge um nível de alta performance em alguma habilidade, algum tipo de treino de manutenção será necessário para manter o alto nível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em algumas populações em que o funcionamento do cérebro está mais propenso a se deteriorar, como é o caso de pessoas com pré-Alzheimer (prejuízo cognitivo leve) ou com doença de Huntington, o declínio ocorre mais rapidamente quando o treino é interrompido e logo retornam ao nível que teriam se nunca tivessem treinado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Enquanto estiverem treinando, porém, conseguem se manter relativamente estáveis, mas não sabemos ao certo por quanto tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É um grande desafio porque temos que mantê-los engajados e o treino precisa ser intenso, pois todas as habilidades do cérebro estão em risco.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP – </strong>Como evitar que esse conhecimento seja usado de forma errada?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich – </strong>O cérebro pode ser treinado a operar de forma destrutiva e há potenciais formas de abuso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Muitos teriam interesse em manipular a plasticidade cerebral para propósitos egoístas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Então é um desafio para nós pensar como isso pode ser controlado e como ter certeza de que esse conhecimento será usado para o bem-estar humano e não para a destruição.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por exemplo, é possível tirar de casa um garoto de 10 ou 12 anos, um bom estudante, e transformá-lo em um assassino, um monstro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O que ocorre nesse caso é a plasticidade cerebral direcionada para a destruição.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Agência FAPESP – </strong>É possível fazer o caminho reverso nesse caso?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Merzenich –</strong> É difícil e requer muito treinamento, mas é possível e esse é um dos meus esforços.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tratar crianças com longo histórico de abuso e negligência, condições que danificam o maquinário cerebral que controla o aprendizado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essas crianças, ao mesmo tempo em que têm o maquinário cerebral de aprendizagem prejudicado, têm acesso a um repertório pobre, que não as prepara para a vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Claro que acabam malsucedidas. A menos que façamos algo para ajudá-las do ponto de vista neurológico, não há esperança para elas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas o que a sociedade em geral faz? Culpa-as pelo seu mau desempenho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Culpamos massivamente as crianças com infâncias terríveis por suas experiências. Isso é estúpido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div class="hr-thin"></div>
<p>&nbsp;</p>
<a href="http://exame.abril.com.br/ciencia/cerebro-muda-de-acordo-como-e-usado-diz-neurocientista/" class="btn-shortcode dt-btn-m dt-btn default-btn-color default-btn-hover-color default-btn-bg-color default-btn-bg-hover-color fadeIn animate-element animation-builder" id="dt-btn-1"><i class="fa fa-chevron-circle-right"></i><span>Saiba Mais</span></a>
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